AxiaCare | Instrumento de Avaliação Técnica
Saúde Suplementar
Instrumento estruturado para avaliação técnica de propostas recebidas por operadoras de saúde suplementar. Analisa novos modelos de cuidado, terapias, pacotes e tecnologias sob a ótica do valor em saúde, combinando análise causal, evidência científica e viabilidade operacional.
Contexto
Operadoras de saúde suplementar recebem, com frequência, propostas de prestadores, fornecedores e áreas internas para incorporar novos modelos de cuidado, terapias, pacotes assistenciais ou tecnologias. Essas propostas chegam em formatos variados, com níveis desiguais de fundamentação, e frequentemente sem uma análise estruturada de causa raiz do problema que pretendem resolver.
O resultado é uma tomada de decisão fragmentada: propostas são aprovadas por pressão comercial, rejeitadas por falta de informação, ou postergadas indefinidamente sem critério claro. Não existe, na maioria das operadoras brasileiras, um instrumento padronizado que permita comparar propostas heterogêneas sob uma mesma régua técnica.
O RTAV™ — Referencial Técnico de Avaliação por Valor foi desenvolvido pela AxiaCare para preencher essa lacuna. Trata-se de um instrumento de triagem e priorização técnica que avalia propostas recebidas por operadoras de saúde suplementar sob a ótica do valor em saúde, integrando conceitos de Health Technology Assessment (HTA), Value-Based Healthcare (VBHC) e análise de viabilidade operacional.
O RTAV™ não substitui uma avaliação de incorporação tecnológica completa (como as realizadas pela CONITEC ou agências de HTA). Seu propósito é anterior: funcionar como um filtro técnico estruturado que permite ao gestor decidir, com base em critérios explícitos, se uma proposta merece aprofundamento ou deve ser classificada como não prioritária.
Estrutura
A avaliação é composta por três blocos sequenciais. Cada bloco cumpre uma função específica no processo de triagem, e todos contribuem para o score final que orienta o parecer técnico.
Bloco Inicial — Peso 2x
Antes de avaliar mérito técnico, é preciso entender o que está sendo proposto e qual problema a proposta pretende resolver. Esse bloco exige que o avaliador preencha três campos descritivos obrigatórios:
1. A Proposta
Descrição objetiva do que está sendo proposto. Quem trouxe, o que é, qual o formato.
2. O Problema
Qual situação-problema a proposta diz resolver. Nem sempre o solicitante explicita isso — cabe ao avaliador identificar.
3. Análise de Causa Raiz
Qual é a causa raiz do problema identificado. Sempre preenchido pelo avaliador, com justificativa técnica.
Após descrever esses três campos, o avaliador atribui uma nota de 0 a 3 que reflete o grau de aderência da proposta à causa raiz do problema:
Esse bloco tem peso dobrado (2x) no score final porque uma proposta que sequer endereça a causa raiz do problema tem valor limitado, independentemente de sua qualidade técnica.
Bloco Central — Quatro Eixos de Avaliação
Avalia se a proposta impacta algo que o paciente percebe e relata. A lógica é centrada no paciente: quanto mais o desfecho depende da percepção do próprio paciente, maior o valor da proposta. A hierarquia segue os instrumentos de medida de desfecho reconhecidos na literatura de Value-Based Healthcare:
Nenhum instrumento de medida de desfecho identificado
A proposta não apresenta forma de medir se o paciente melhora.
CROMs — Clinician-Reported Outcome Measures
Apenas o clínico relata melhora. O paciente não é ouvido diretamente.
PREMs ou PROMs — um dos dois
O paciente relata experiência (PREMs) ou desfecho clínico (PROMs), mas não ambos.
PREMs + PROMs — ambos presentes
O paciente relata tanto a experiência quanto o desfecho. Máxima centralidade no paciente.
Avalia se o problema que a proposta diz resolver existe de fato naquela realidade, com tamanho suficiente para justificar ação. Uma proposta pode ser tecnicamente excelente, mas se o problema é irrelevante naquela carteira ou hospital, não faz sentido investir recursos nela.
Problema irrelevante nesta realidade
O problema descrito não é percebido, não gera impacto e não justifica ação.
Problema existe, impacto baixo
O problema ocorre, mas com frequência ou magnitude insuficientes para priorização.
Problema existe, impacto moderado
O problema é percebido pela operação e gera impacto mensurável, mas não é crítico.
Problema frequente, impacto claro
O problema é recorrente, gera impacto financeiro ou assistencial relevante e é percebido por múltiplas áreas.
Avalia o grau de embasamento da proposta. Não se limita a evidência científica pura — inclui também a existência de cases de sucesso implantados em realidades compatíveis com a da operadora avaliadora. Uma proposta com forte evidência acadêmica mas sem comprovação prática em contexto semelhante recebe nota menor do que uma que combina ambos.
Sem evidências ou casuística
A proposta não apresenta nenhuma fundamentação técnica, científica ou prática.
Evidências fracas
Opinião de especialista, série de casos pequena, consenso local ou relato isolado.
Evidência forte
Ensaio clínico randomizado, revisão sistemática, metanálise ou diretriz de sociedade reconhecida.
Evidência forte + cases de sucesso em realidade compatível
Além da evidência científica, existem implantações bem-sucedidas em operadoras ou hospitais de porte e contexto semelhantes.
O avaliador deve informar quais evidências e cases identificou, com referências sempre que possível.
Avalia a relação entre o custo da proposta e a economia que ela pode gerar. Não se trata de avaliar se a proposta é "barata", mas se o investimento se justifica pelo retorno esperado. O avaliador deve considerar custos diretos, indiretos e a escala de aplicação.
Economia gerada inexistente ou não demonstrada
A proposta não apresenta análise de custo-benefício ou os números não sustentam economia.
Economia gerada possível mas incerta
Há indicativos de economia, mas as premissas são frágeis ou o volume é insuficiente para confirmar.
Economia gerada provável
A análise de custo-benefício é razoável e as premissas são defensáveis, embora com margem de incerteza.
Economia gerada clara e demonstrável
Números sólidos, premissas verificáveis e retorno financeiro evidente dentro do horizonte proposto.
Bloco Final — Peso 2x Negativo
Mesmo uma proposta com alto mérito técnico pode ser inviável na prática. Este bloco avalia quatro dimensões de barreira que podem impedir ou dificultar a implantação. Cada barreira identificada subtrai pontos do score final, com peso dobrado (2x negativo), refletindo o fato de que barreiras práticas frequentemente são mais determinantes do que o mérito técnico.
Regulatória (ANS)
A proposta está em conformidade com o Rol de Procedimentos da ANS? Existem diretrizes regulatórias que impedem ou restringem sua adoção? Há necessidade de registro ANVISA pendente?
Jurídica
Há risco de judicialização? Existem precedentes jurisprudenciais relevantes? A responsabilidade civil está adequadamente endereçada no desenho da proposta?
Contratual
Os contratos vigentes com a rede credenciada permitem a implantação? O modelo de remuneração é compatível? Há cláusulas restritivas que precisam ser renegociadas?
Operacional
A operadora possui infraestrutura, logística e recursos humanos para implantar? A rede credenciada tem capacidade técnica? Há dependência de fornecedores não disponíveis?
Para cada dimensão, o avaliador marca Sim (viável, sem barreira) ou Não (barreira identificada). Quando a resposta é "Não", o avaliador deve justificar qual é a barreira específica. Cada "Não" equivale a -1 ponto bruto, multiplicado por 2 no score final.
Resultado
O score final é calculado a partir da soma ponderada de todos os blocos, normalizada para uma escala de 0 a 100. A fórmula é transparente e reprodutível:
Fórmula de Cálculo
Bruto = (Enquadramento x 2) + Importância + Pertinência + Sustentação + Eficiência + (Barreiras x -1 x 2)
Score = ((Bruto + 8) / 26) x 100
O valor 8 desloca o mínimo teórico (-8) para zero. O divisor 26 corresponde à amplitude total (18 - (-8)). O resultado é um número inteiro entre 0 e 100.
75–100
Recomendada
50–74
Recomendada com ressalvas
25–49
Não prioritária
0–24
Não recomendada
O score orienta, mas não determina, o parecer técnico. O avaliador pode, justificadamente, emitir um parecer diferente da faixa sugerida pelo score — por exemplo, quando uma barreira regulatória é temporária e tem previsão de resolução, ou quando o volume da carteira está em crescimento acelerado.
O parecer final é sempre acompanhado de uma justificativa escrita pelo avaliador, que contextualiza o score numérico e registra ressalvas, condicionantes ou recomendações de acompanhamento.
Fundamentação
O RTAV™ integra conceitos de três campos complementares. A estrutura de eixos é inspirada no HTA Core Model da EUnetHTA, que organiza a avaliação de tecnologias em saúde em domínios como efetividade clínica, segurança, custos e aspectos organizacionais. A hierarquia de desfechos (PROMs, PREMs, CROMs) segue o modelo de Value-Based Healthcare proposto por Michael Porter, que posiciona os resultados que importam para o paciente como eixo central da avaliação de valor. A análise de viabilidade incorpora elementos do mini-HTA dinamarquês, um instrumento de triagem rápida utilizado por hospitais para avaliar a adoção de novas tecnologias antes de uma avaliação completa.
O Enquadramento da Demanda, com sua análise de causa raiz, é uma contribuição original do RTAV™. Ele parte do princípio de que muitas propostas recebidas por operadoras tratam sintomas em vez de causas — e que identificar essa distinção antes da avaliação técnica evita investir recursos em soluções que não endereçam o problema real.